quinta-feira, 17 de maio de 2012

São Thomé das Letras



Era um adolescente cheio de besteiras, levando junto aos passos ainda menos “conteúdo” do que carrego hoje em dia, quando pisei pela primeira vez sobre as pedras esbranquiçadas e esfarelentas que constituem o calçamento da cidade de São Thomé das Letras. O município ainda era aclimatado pelo ar de ingenuidade que caracteriza os vilarejos que passaram longas décadas – quiçá séculos? – sem estabelecer estreitos contatos com a “civilização em redor”. 

Não que a crescente visitação de turistas tenha tornado São Thomé menos especial do que ela fora um dia. Não que eu necessariamente tenha me tornado mais completo como ser humano após ler “meia-dúzia” de livros e descobrir o ímpeto pelas mudanças. Somos apenas diferentes! 

A minha primeira impressão a respeito da cidade, todavia, não foi lá muito favorável. A simplicidade de suas estradas de terra batida, construções de pedras sobrepostas, as mesmas que revestem o calçamento, levaram-me à associação direta com penosa pobreza. Há os que veem beleza na pobreza e a defendem como uma linha cultural singular, assim como outros acusam os primeiros de “inimigos do progresso”. Eu me abstenho de tal discussão e somente não considero a pobreza um demérito, mas naquele dia, a paisagem que avistava através dos vidros das janelas do ônibus da excursão turística da qual eu era guia, provavelmente por puro preconceito que acabava de vir à tona, fez com que eu sentisse pena dos habitantes que ali viviam em meio a tal simplicidade. 

http://ecoviagem.uol.com.br/blogs/eduardo-andreassi/viagens-nacionais/sao-tome-das-letras-10398.asp

São Thomé das Letras me apresentaria a outras possibilidades, porém, inclusive perspectivas diferentes de organização social, que não necessariamente implicavam em seres humanos julgados a primeira vista pelo valor de suas posses materiais. Pouco a pouco, percorrendo ruas de pedras e estradas de terra, conversando com os nativos ou os poucos e atípicos turistas que a São Thomé visitavam e retornavam a cada par de meses, fui tocado de maneira que nem sequer saberia dizer o quanto do que hoje eu sou se deve àquele lugar. 

Voltaria muitas outras vezes a São Thomé. Pelo menos doze outras vezes guiando excursões e outras quatro como “mero visitante”. Inúmeros os momentos em que tive a oportunidade de testemunhar que não era inédito alguém mudar seus pontos de vista, ideais, caráter, a partir do instante de sua primeira visita a São Thomé das Letras. As excursões e interações ecoavam em algumas boas amizades e pude perceber o quanto as pessoas mudavam a cada viagem. Não eram poucos aqueles que choravam copiosamente no instante em que o nosso veículo adentrava as ruas da cidade e/ou quando partíamos de volta para casa – conceito falho: “nossa casa”, visto que “deter” propriedade sobre um lugar, não significa que nos sentiremos propriamente “em casa”.

http://excursaothome.blogspot.com.br/2011_05_01_archive.html



Certa vez, acompanhando grupo de cinco turistas que desejavam comprar alguma peça do artesanato local para guardar de lembrança, acabamos indo ter com tranquilo artesão de passagem por aquela região.

- Poxa! Falamos a pouco com outro artesão que estava pedindo o dobro do preço por esta mesma peça! -, disse uma das turistas que eu acompanhava. 

- O material que ele usa deve ser de melhor qualidade! -, respondeu o artesão. 

Acontecimento de sutil significado que jamais trancorreria em “lugar comum tomado pela voracidade do mercado”. “Eles cobram realmente caro!” -, diria o atendente em qualquer centro de compras, desvalorizando o “produto” alheio. E se trata de pequeno exemplo de tudo o que pude vivenciar em São Thomé das Letras, incluindo rara solidariedade, além de inusitadas passagens. Como a do dia em que conversei com outro dos inúmeros artesãos sempre presentes em São Thomé. Ele se decidira há tempos fixar residência na área rural do município. Estava revoltado, pois a companhia de energia elétrica instalara rede de energia nas redondezas do sítio que ele ocupava, obrigando a sua família a também encher de cabos de eletricidade a residência simples onde moravam. Lembrei-me imediatamente das propagandas televisivas governamentais, que mostram parcerias do Estado com as companhias de energia para levar eletricidade até as famílias de locais mais inóspitos. Estes comerciais sempre mostram sorridentes habitantes que agora tinham acesso às “maravilhas da modernidade”. Aquele artesão, no entanto, não estava contente. Eles viviam felizes à luz de lamparinas. 

http://www.flickr.com/photos/khan-nakamura/4787500877/

Sim! A energia chegou à área rural de São Thomé das Letras, assim como o asfalto hoje recobre boa parte das estradas que levam ao alto da Montanha Abençoada. O crescimento do turismo fatalmente doaria aos habitantes traços da sofreguidão vivida no “mundo capitalista” (motivo maior para que eu tenha deixado de trabalhar com excursões). As piscinas e residências dos abastados, em tempos de “progresso” acelerado pós-boom-econômico, exigem cada vez maior quantidade do quartzito que as pedreiras (sob milionária concessão da igreja, proprietária da maior parte dos terrenos explorados) explodem e retiram do solo de São Thomé das Letras. Várias cachoeiras tiveram as suas nascentes soterradas e não mais existem. Grutas de rico valor histórico estão ameaçadas. A paisagem é modificada a cada dia e a olhos nus, enquanto me pergunto se não teria sido melhor se ninguém mais, além dos habitantes seculares, tivesse pisado sobre aquelas pedras. Será que os habitantes não se perguntam a mesma coisa? 

Seja como for, São Thomé das Letras ainda guarda os seus encantos, bem como exibe inominável beleza. Após quase cinco anos sem ir lá ter com os meus próprios pensamentos, demônios, alegrias e tristezas; cinco anos sem conversar com aqueles de quem me sinto tão próximo, porém, a voz que me chama me parece até mais nítida e forte do que clamou nos primeiros tempos. Chego a sentir o vento constante e gelado a desvelar tudo o que eu nunca esqueci. A estrada que trilho todas as noites em sonhos ansiosos. Os caminhos de terra batida que eu sou.

http://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotos-g1102708-Sao_Thome_das_Letras_State_of_Minas_Gerais.html

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Estrada

Estrada de acesso à cidade de São Lourenço - MG.

Não foram poucas as pessoas que, seja por meio de livros, depoimentos, pinturas, músicas, tornaram público o seu fascínio pelo impulso que leva as espécies à migração. Busca por alimentos? Reprodução? Estação mais amena? 

Darwin, em seu “Descendência do Homem”, relata a agonia do Ganso de Audubon que, tendo cortadas as penas de suas asas, sido impedido de alçar voo, logo retoma a viagem rumo ao sul caminhando obstinadamente passos que o observador descreveria como desajeitados. Outro pássaro citado no mesmo livro, capturado e encerrado em gaiola na época de sua migração, matou-se de tanto bater as asas e ensanguentar o peito contra as grades de sua prisão. 

Bruce Chatwin não foi o único a abordar a real possibilidade de que o irresistível impulso migratório ou nômade seja inato também nos seres humanos. Ele próprio, viageiro incansável, em seu “O Rastro dos Cantos”, cita inúmeros antropólogos, historiadores, arqueólogos e pensadores que, por diferentes razões e conclusões, acreditavam que a atual condição “sedentária” do ser humano é incoerente com a nossa hipotética natureza nômade; e, portanto, causa primeira de infinidade de problemas. 

Chatwin toma maiormente os aborígenes australianos como base de suas citações e observações. O “rastro dos cantos”, por exemplo, nada mais é do que a denominação traduzida que o autor dá a determinadas pinturas aborígenes registradas em tábuas geração após geração. Tais pinturas reproduzem “mapas” dos lugares através dos quais os antepassados primordiais dos aborígenes haviam transcorrido até chegarem aos locais ocupados pelas “tribos” atuais. Os desenhos a formarem os “mapas”, no entanto, não são propriamente lidos. São cantados. São canções executadas pelos aborígenes e que os orientam em suas viagens rituais de retrilhar os caminhos dos antepassados e em seus percursos como nômades. 

Por fim, segundo tal livro, consultando os “mapas’ de todos os antepassados – de todas as civilizações que habitaram todo o mundo, inclusive - chega-se a um só destino: algum ponto no coração da África. É interessante fazer parêntese citando as palavras do próprio Bruce Chatwin: 

    “Antes de vir à Austrália, eu costumava falar com frequência sobre os Rastros de Canto, e as pessoas os associavam invariavelmente a outra coisa. 
    ‘São como as ley-lines?’, diziam, referindo-se aos antigos círculos de pedras, menires e sepulturas que podem ser encontrados em linhas por toda a Grã-Bretanha. São de uma grande antiguidade, mas visíveis apenas àqueles cujos olhos estão abertos. 
    Os sinólogos associavam os Rastos de Canto às ‘linhas do dragão’ do feng-shui, ou à geometria chinesa tradicional: e quando conversei com um jornalista finlandês, disse-me que os lapões tinham ‘pedras cantantes’, que também eram dispostas em linhas. 
    Para alguns, os Rastos de Canto eram como a Arte da Memória ao contrário. No maravilhoso livro de Frances Yates, fica-se sabendo como os oradores clássicos, desde antes de Cícero, construíam palácios de memória, ligando partes de seus discursos a estruturas arquitetônicas imaginárias para em seguida, após terem passados por todas as arquitraves e colunas, conseguirem guardar de cabeça discursos de extensões colossais. As estruturas eram conhecidas como loci ou ‘locais’. Na Austrália, porém, os loci não eram uma construção mental, mas existiram desde sempre, como acontecimentos do Tempo do Sonho. 
    Outros amigos os associavam às ‘linhas’ de Nazca, gravadas na crosta, esfarelenta como suspiro, do deserto do Peru central e que de fato representam uma espécie de mapa totêmico. 
    Uma vez, passamos uma semana divertidíssima com a autoinstituída guardiã dessas linhas, Maria Reich. Certa manhã, fui com ela ver a mais espetacular de todas as linhas, visível apenas ao nascer do sol. Carreguei o equipamento fotográfico dela por uma colina íngreme de poeira e pedras, enquanto ela, com setenta anos, galgava na frente. Fiquei horrorizado ao vê-la de repente passar rolando morro abaixo até o chão. 
    Achei que tivesse se quebrado inteira, mas ela riu: “Meu pai costumava dizer que, quando você começa a rolar, tem de continuar rolando até o fim”. 
    Não. Não eram essas as comparações que eu procurava. Não nesse estágio. Eu estava além. 
    As trocas significam amizade e cooperação; e para os aborígenes o principal objeto de troca era o canto. Logo, ele trazia a paz. E, contudo, eu sentia que os Rastos de Canto não eram necessariamente um fenômeno australiano, mas universal: que eram os meios pelos quais o homem marcava seu território e, por conseguinte, organizava a vida em sociedade. Todos os outros sistemas sucessivos foram variantes – ou perversões – desse modelo original. 
    Os principais Rastros de Canto na Austrália parecem entrar pelo Norte ou Noroeste – a partir do mar de Timor ou do estreito de Torres – e daí serpentear para o Sul através do continente. Tem-se a impressão de que representam as trilhas dos primeiros australianos – e que estes vieram de outro lugar. 
    Há quanto tempo? Cinquenta mil anos? Oitenta ou cem mil anos? As datas são insignificantes se comparadas às da pré-história africana. 
    E aqui tenho que fazer profissão de fé, para entrar em regiões onde não teria esperanças de que ninguém me acompanhasse. 
    Tenho uma visão dos Rastros de Canto se estendendo por continentes e pelos séculos; que, por onde quer que tenha andado, o ser humano deixou uma trilha de canto (cujo eco podemos, vez por outra, perceber); e que essas trilhas devem levar de volta, no tempo e no espaço, a um bolsão isolado na savana africana, onde o Primeiro Homem, abrindo a boca em desafio aos “terrores” que o cercavam, gritou o verso de abertura do Canto do mundo: “EU SOU!”. 
    Deixem-me ir um pouco mais além. Imaginemos o Pai Adão (Homo sapiens) deambulando pelo Éden. Ele dá um passo com o pé esquerdo e nomeia uma flor. Dá um passo com o direito e nomeia uma pedra. O verbo o leva à estrofe seguinte do Canto. Todos os animais, insetos, aves, mamíferos, golfinhos, peixes e baleias de corcova têm um sistema de navegação que chamamos de triangulação. Os mistérios da estrutura inata da frase, tal como postulada por Chomsky, tornam-se muito mais simples se pensados como triangulação humana. Sujeito-objeto-verbo.” 

Mas não só para refazer a viagem dos antepassados, dando vazão a seus rituais, os aborígenes continuam a trilhar as suas estradas. Respondendo às perguntas do primeiro parágrafo deste post, os beduínos não são nômades exclusivamente em busca de alimentos que atualmente eles conseguiriam de modo mais “simples” do que vagando pelo deserto, os nômades da Mongólia contam com praticamente as mesmas condições climáticas em qualquer localidade para onde eles costumam se dirigir e acampar sazonalmente, a reprodução humana não carece de ambiente propício como o dos peixes que nadam desesperados contra a correnteza, para desovar em antro protegido. 

Malucos de Estrada, Hippies, Turistas... viajamos por que tomar a estrada é parte inata de nossa indefinida natureza enquanto humanos. E, se não tomamos a estrada, e ela própria não nos trilha, adoecemos. Padecem as sociedades que formam esta rede una espalhada pelo mundo. 

“Nossa natureza reside no movimento; a calma completa é a morte.” -, dizia Pascal. “Os próprios céus giram incessantemente, o sol nasce e se põe, a lua cresce, as estrelas e planetas mantêm seus movimentos constantes [...], para nos ensinar que devemos sempre estar em movimento.”, disse Robert Burton. “Minha saúde estava ameaçada. Veio o terror. Por dias e dias eu dormi e, ao acordar, continuava tendo os sonhos mais lúgubres [...] Fui obrigado a viajar, para afastar os encantamentos agregados no meu cérebro.” -, escreveu Rimbaud. “E não conheço preocupação, por maior que seja o fardo, que não possa ser afastado com uma caminhada...” -, Kierkegaard. “Os psiquiatras, os políticos e os déspotas estão sempre nos assegurando de que a vida sem rumo é uma forma aberrante de comportamento, uma neurose, uma forma de desejo sexual não realizado, uma doença que, pelos interesses da civilização, deve ser eliminada. Os propagandistas nazistas alegavam que os ciganos e os judeus – povos errantes em seus genes – não tinham lugar num Reich estável. Contudo, no Oriente, eles ainda preservam o conceito antes universal: a errância restabelece a harmonia original que certa vez existiu entre o homem e o universo.” -, Bruce Chatwin. 

Por minha vez, trabalhei dos 14 aos 19 anos de idade organizando e guiando excursões turísticas, algo em torno de trinta viagens às mais diferentes paisagens e em companhia de diversas pessoas. As minhas atuais atividades em prol da sobrevivência exigem que me desloque vez ou outra, porém, não é exatamente a mesma coisa. Seja como for, não sei mensurar o quão importantes estas trilhas foram e são para a constituição do meu ser, para a minha maneira de enxergar e me colocar perante o mundo e etc. 

Tendo ainda na retina cada paisagem, no mínimo, não sigo vazio. Posso explanar sobre estranhamentos: sujeito-objeto-verbo. Posso me sentir, por exemplo, como uma árvore seca no alto de uma montanha, às vezes, é verdade; ou flutuando, privilegiado junto a nuvens que um dia se acercaram de mim, sem camisa sobre a carroceria de um caminhão cujo condutor me dera carona. 

Posso me sentir miserável ou privilegiado: não faz diferença! As paisagens seguem comigo e eu sempre a orar não os "mantras" das religiões. Carregando o meu “saco cheio de vida”, lotado de experiências que podem não me tornar melhor; levando recordações que pulsam o peito e se acumulam cada vez mais, no entanto, oro incessantemente, em silêncio, os passos e canções ancestrais da liberdade que virá ainda que tardia. 

E, se por um lado não posso mensurar, agradeço à estrada. Agradeço inclusive por ela ter me levado a notar algo fascinante: como são diferentes as pessoas quando confrontadas com paisagens a que elas não estão habituadas! Tornam-se perfeitas? Não! Apenas uma versão mais amena daquilo em que a sociedade as tornou. E, na maior parte do tempo, abertas a novas experiências e ideias que possam lhes aprimorar algumas coisas. E isto já é muito! Todo tipo de guerras perde o sentido quando se tem liberdade e é feliz.

(Todas as citações do texto acima podem ser encontradas no livro "O Rastro dos Cantos", de Bruce Chatwin. Companhia das Letras, 1996.)